A FACULDADE
GRADUAÇÃO
PÓS-GRADUAÇÃO
CULTURA E EXTENSÃO
PESQUISA
COOPERAÇÃO ACADÊMICA
DOCENTES
NOTÍCIAS
REVISTAS
OUVIDORIA
FALE CONOSCO
INTRANET
DEPARTAMENTOS
BIBLIOTECA
A FACULDADE
HISTÓRIA
ORGANIZAÇÃO
SER FRANCISCANO
DIVERSIDADE
MUSEU E ARQUIVOS
MAPA DA FACULDADE
GALERIA DE IMAGENS
LEGISLAÇÃO
COMUNICADOS/PORTARIAS
LICITAÇÕES
VESTIBULAR
EDITAIS
GRADUAÇÃO
A COMISSÃO
NOTÍCIAS
DOCENTES
GRADE HORÁRIA
MAPA DE PROVAS
TCC
ESTÁGIOS
DIPLOMAS ESTRANGEIROS
EDITAIS
FORMULÁRIOS
LEGISLAÇÃO
PÓS-GRADUAÇÃO
PÁGINA INICIAL
CALENDÁRIO
DISCIPLINAS CREDENCIADAS
LINHAS DE PESQUISA
PROJETOS DE PESQUISA
CULTURA E EXTENSÃO
A COMISSÃO
NOTÍCIAS
CURSOS
ATIVIDADES ACADÊMICAS
COMPLEMENTARES
FORMULÁRIOS
LEGISLAÇÃO
PESQUISA
A COMISSÃO
NOTÍCIAS
INICIAÇÃO CIENTÍFICA
GRUPOS DE PESQUISA
PÓS-DOUTORADO
LEGISLAÇÃO
COOPERAÇÃO ACADÊMICA
CCinN-FD - A Comissão
NOTÍCIAS
BOLSAS
CONVÊNIOS
PITES
CÁTEDRA UNESCO
LEGISLAÇÃO
DOCENTES
EM ATIVIDADE
SENIORES
EMÉRITOS
APOSENTADOS
GALERIA DE PROFESSORAS
Opinião
Opinião

Os desafios do ensino jurídico às vésperas do bicentenário da Independência do Brasil

Celso Fernandes Campilongo é diretor na Faculdade Direito da USP (mandato, a partir de 21 de fevereiro) e professor no Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito

Ana Elisa Liberatore S. Bechara é vice-diretora na Faculdade Direito da USP (mandato, a partir de 21 de fevereiro) e professora no Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito

 

O debate sobre os desafios do ensino do Direito não é novo e nem exclusivo da realidade brasileira. De fato, o modelo tradicional de ensino que prevaleceu até o final do século XX, de inspiração privatista e organizado com base nas ideias de soberania estatal e de legalidade, já não consegue fornecer respostas adequadas às perplexidades e rupturas advindas da sociedade contemporânea. Alguns sinais das dificuldades nessa área são o frequente descompasso entre o que é ministrado em sala de aula e a realidade prática, as altíssimas taxas de reprovação nos exames da Ordem dos Advogados do Brasil e o não preenchimento de vagas em concursos públicos para o ingresso em carreiras jurídicas.

A discussão sobre a necessidade de revisão do ensino jurídico assumiu, porém, novos contornos nos últimos anos, em razão de diversos fatores. Em primeiro lugar, destacam-se o aumento vertiginoso do número de cursos de Direito no Brasil e o intenso processo de transformação vivenciado no país em relação à evolução do quadro institucional e à reformulação de suas bases normativas. De outra parte, apontam-se as mudanças na operação concreta do Direito provocadas pela inteligência artificial, exigindo do profissional mais criatividade e capacidade analítica para conseguir sobreviver às novas necessidades do mercado. Além disso, assiste-se hoje a uma dicotomia entre o fortalecimento de diversos movimentos sociais voltados à inclusão e à cidadania, de um lado, e ataques ao próprio Estado Democrático de Direito, de outro, o que gera ao mesmo tempo esperança de uma sociedade mais equânime e preocupação de retrocessos político-sociais.

Outro importante fator a impulsionar a reestruturação do ensino jurídico é a progressiva mudança de perfil socioeconômico do corpo discente, causada pelas ações afirmativas adotadas nas universidades públicas na última década e a ampliação da disponibilização de vagas pelo Sistema de Seleção Unificada (SISU). A crescente diversidade nas salas de aula possibilita novas percepções, novos debates e novas capacidades, determinando um extraordinário avanço na formação, com a superação da ideia disfuncional de um Direito “neutro” excludente e a compreensão crítica das interações sociais a partir das diferenças. Em contrapartida, a mudança de perfil discente traz novos desafios à Academia, relacionados à formulação de políticas de acolhimento e de permanência de grupos vulneráveis.

 Finalmente, a pandemia de Covid-19 impôs novas dificuldades, relacionadas à exigência de distanciamento físico, à necessidade de aprendizado de novas tecnologias de ensino e ao aumento da demanda social quanto à contribuição da Universidade para a solução de problemas concretos. Paradoxalmente, tais adversidades acabaram por acelerar um importante processo de evolução, implicando a busca de capacitação pedagógica pelos docentes, o crescimento da interdisciplinaridade nos cursos e a maior humanização e acolhimento no relacionamento acadêmico, que passou a reconhecer questões éticas, socioeconômicas e de saúde mental antes invisibilizadas. 

Diante dos fatores expostos e no âmbito de sociedades cada vez mais complexas, interconectadas globalmente e marcadas por dilemas inéditos, o ensino do Direito não pode ser apartado da realidade e deve ser capaz de articular os novos e plurais saberes advindos de transformações econômicas, sociais e políticas, sem desprezar a riqueza de ideias e perspectivas de um conhecimento científico que converte o universo jurídico ao mesmo tempo em fonte de valor social e território de poder.

Tratando especificamente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, é preciso anotar sua condição peculiar no cenário nacional. Criado por decreto imperial em 1827, o curso de Direito de São Paulo teve sua vocação inicial ligada à necessidade de formação de quadros para o Estado brasileiro nascente, preocupando-se desde a sua fundação com os problemas concretos do país. A passagem do tempo e a multiplicação dos cursos jurídicos no Brasil não alteraram significativamente a posição de referência das Arcadas, mas exigem uma reflexão sobre sua missão atual.

Evidente que a Faculdade de Direito da USP deve continuar a exercer seu papel político no cenário brasileiro, impulsionando discussões e posicionando-se no debate público sobre temas importantes, mas para tanto precisa repensar constantemente o conteúdo da formação que promove. Sob essa perspectiva, é importante destacar que embora tenha precedido a criação da USP, a identidade da quase bicentenária Faculdade de Direito hoje é dada pela integração a uma das mais importantes universidades de pesquisa da América Latina. Assim, no âmbito do denominado tripé universitário, o ensino jurídico deve estar intimamente relacionado às atividades de pesquisa e de extensão, alimentando-se delas para promover uma formação humanista que cultive a atitude crítica e investigativa como elemento central.

Nesse contexto, um dos principais desafios do ensino do Direito é envolver as alunas e alunos não só no aprendizado técnico, mas na reflexão sobre os problemas sociais, proporcionando instrumental teórico e analítico para o desenvolvimento de um raciocínio jurídico apurado, que envolva sensibilidade, reflexão e criatividade. Para isso, é necessário promover mudanças na metodologia de ensino, articulando-a, inclusive, com as pesquisas institucionais e atividades de extensão relacionadas a temas socialmente caros. Trata-se de deixar de lado o mero exercício da repetição para provocar continuamente os discentes à autocompreensão como parte dos conflitos sociais, cultivando, a partir da análise crítica da realidade contemporânea, a capacidade de espantar-se e de questionar.

Da mesma forma, um ensino jurídico mais condizente com as questões complexas impostas pela realidade social atual, tais como aquelas relacionadas à saúde, ao meio ambiente e ao controle da corrupção, passa necessariamente pela interdisciplinaridade e pelo incremento da política de internacionalização. Mas isso é tema para uma abordagem específica. Em qualquer caso, há que se romper fronteiras, preconceitos e estereótipos, tomando em conta, ao lado da excelência, a contribuição social, a interdependência e a inclusão como valores acadêmicos fundamentais.

Às vésperas do bicentenário da independência e da criação dos cursos de Direito no Brasil, precisamos repensar conteúdos e métodos, rompendo com o conservadorismo pedagógico que contribui para a manutenção do conservadorismo socioeconômico e político-jurídico. O ensino do Direito deve habilitar os profissionais de amanhã a entender criticamente a realidade da perspectiva jurídica, sem perder de vista o diálogo com os demais saberes e as necessidades sociais inerentes a uma realidade desigual e em constante transformação.

NOTÍCIAS RELACIONADAS
Faculdade de Direito - Universidade de São Paulo
Largo São Francisco, 95
São Paulo-SP
01005-010
+55 11 3111.4000