Encontro, organizado pelo Nexo Governamental XI de Agosto, reuniu líderes nas mais diversas áreas da sociedade
Edição: Kaco Bovi
Um time feminino de líderes nas mais diversas áreas da sociedade se reuniu na Faculdade de Direito da USP para o evento “Mulheres que Inspiram”, organizado pelo Grupo de Pesquisa e Extensão Nexo Governamental XI de Agosto. A mesa foi pautada por desafios, depoimentos pessoais, o papel da mulher como transformadora da sociedade, política de paridade, a missão de romper barreiras e as tantas dificuldades que lhes são impostas diariamente em todos os setores.
Entre as painelistas, Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho do Magazine Luiza; Chieko Aoki, fundadora e presidente da Blue Tree Hotels; Teresa Vendramini, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira; Márcia Dalla Déa Barone, desembargadora no TJ-SP; Daniela Magalhães, vice-presidente da OAB-SP; e Liliane Castro, fundadora e presidente do Nexo Governamental XI de Agosto.
Os trabalhos foram mediados por Liliane, que agradeceu as presenças e reiterou o significado de debater a questão. “É um tema muito rico e importante. A gente é maioria de mulheres na sociedade e dentro da Universidade, com mais de 50%. Porém, em cargos de liderança não existe a mesma proporcionalidade. A gente sempre vê nos postos mais altos homens, brancos. Tem uma classe, uma etnia e um gênero. Aqui, temos mulheres que transpassaram essa barreira. É um tema caro e exige discussões para conseguir mudar esse cenário”, avaliou.
Teresa Vendramini relatou algumas conquistas em um setor de difícil atuação como o dela. “Hoje estou em oito conselhos no Brasil representando o agronegócio brasileiro, um deles é o ‘Conselhão’. Me honra demais estar em alguns deles, por exemplo, Febraban, Embrapa, estive no G20. E o que acontece sendo mulher? Ainda sou a única representante do agro, em várias situações”, disse.
Ela adicionou que são nos lugares mais distantes das capitais que as mulheres encontram mais dificuldades. “Estou falando de comunidades (por onde passei) e tinha meia dúzia de casinhas, assentamentos. São nesses lugares que não tem nada que defenda a mulher. Se ela sofrer uma agressão ali, não tem para onde recorrer”.”
“Qual é o papel da gente aqui? Qual que é o papel do Nexo, o papel dessa universidade, o papel das minhas amigas que estão aqui hoje?”, questionou. “Meu papel, onde eu me emociono, é quando eu chego nesses lugares”.”
Luiza Trajano falou sobre as mudanças que ocorreram nas últimas décadas e assinalou que a pandemia trouxe uma gestão mais orgânica. “Até a década de 1990, ela era totalmente mecânica. O homem não podia falar que ele não sabia, ele não podia falar que o filho estava doente etc.. A partir de 1995, passamos a ver muitas mudanças. E com a pandemia ela se firmou muito. A pandemia, para mim, é uma coisa que nós nunca vamos entender. Mas ela deixou algumas coisas importantes também. E como entra a mulher nisso? A mulher está muito mais bem preparada. Ela viveu menos os receios da gestão mecânica. Ela tinha de fazer muita coisa ao mesmo tempo. Ela tinha de criar filhos. Então, hoje, a gestão orgânica permite que haja mais espaço”, assinalou.
Outro ponto reforçado pela empresária é o fato de homens e mulheres terem de trabalhar juntos. E acrescentou a importância de as empresas cuidar melhor de seus funcionários, e que todos devem aprender a lidar com as diferenças.
Trajano enfatizou ainda a necessidade de ampliar ações de combate à violência. Para isso, elencou a campanha de combate ao feminicídio na Magazine Luiza. “A primeira coisa que a gente fez foi furar a nuvem, porque, até cinco anos atrás, ninguém, nenhuma emissora de TV, nem de digital, falava de violência. Quem é mais velho aqui sabe disso. Um dos nossos objetivos é fazer falar. A gente trouxe à tona esse assunto que era totalmente escondido. Temos que pegar essa causa, sabe por quê? Não tem nenhuma perda pior para a sociedade do que a violência contra a mulher. E agora vamos lançar uma campanha para que, em poucos anos, não tenhamos nenhum feminicídio neste País”.
As políticas de inclusão e valorização da mulher advogada, bem como da paridade nas Comissões da instituição e do número de funcionárias, foram apresentadas pela vice-presidente da OAB São Paulo, Daniela Magalhães. A instituição promove ações e campanhas para reforçar a questão. A dirigente destacou a obrigatoriedade da igualdade no número de Conselheiras e em demais postos nos compromissos de gestão. “Vamos receber hoje 60 novas advogadas e 42 novos advogados. Todo dia, em todo o Estado, os números são sempre de maior número de mulheres ingressantes na Ordem”, disse, realçando o fato de haver mais mulheres na Advocacia.
Daniela disse, porém, que ainda são enormes as dificuldades enfrentadas para alcançar postos de liderança, principalmente no Judiciário. Para amparar sua fala, mostrou algumas fotos. Dentre as quais, a do Supremo Tribunal Federal, onde, atualmente, há somente a ministra Cármen Lúcia, dos onze que compõem a Corte.
“A gente precisa estar junto, tem de se apoiar, porque, se o homem sai pra jantar com outro homem e fazer networking, tá tudo bem. Quando a gente sai, as próprias mulheres nos julgam”, disse.
Antiga aluna da Faculdade de Direito, Chieko (que caminhou para a área empresarial) lembrou dos tempos de estudante e se disse impressionada pela quantidade de mulheres, atualmente, na FDUSP. “Quando eu fiz a faculdade aqui, no período noturno, tinha muito poucas mulheres. Entrei no ramo de hotelaria por acaso e tive muitas conquistas”, disse.
De acordo com ela, o segmento de hotelaria se movimentou para dar lugar para empregar mulheres. “Se você souber de mulheres que estão sofrendo violência que queiram entrar em turismo e hotelaria, elas têm as portas abertas por meio de parceria que a gente fez com a Secretaria de Estado, Grupo Mulheres do Brasil”, assinalou.
Para ela, só tem uma forma de ter estabilidade social, que é por meio de geração de emprego. “A gente tem de empregar mais pessoas. A gente tem de trabalhar pela paz no mundo e pela paz das pessoas. E com as pessoas empregadas, estando bem, teremos menos conflitos também”.”
Márcia Barone ressaltou que a iniciativa de ser abraçada por toda a sociedade. Disse ela ter ficado contente com a indicação da advogada Verônica Abdalla Sterman para o STM. “Estou feliz por ter uma mulher lá para nos representar”, disse. Contou parte de seus 36 anos de carreira na magistratura, desde o juizado de primeira instância até o cargo de desembargadora e sua recente eleição para o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo. “Quando ingressei no TJ-SP era um tribunal bastante conservador, bastante fechado. Eram pouquíssimas mulheres e tínhamos uma barreira muito grande de ingresso. A barreira começava no concurso”, afirmou. “’Isto não é uma profissão para mulher’, cheguei a ouvir do examinador que me aprovou e acrescentou: ‘eu não tive outra forma, você teve uma nota boa e você vai ter de ser aprovada’”.
Barone acrescentou que o Tribunal tem orgulho, hoje, de não existir mais essa barreira. “Primeiro, temos um exame nacional feito igualmente no Brasil todo. E, depois, as provas deixaram de ser identificadas. A minha prova tinha o meu nome; então, todo mundo sabia que estava corrigindo uma prova feminina”, lembrou.
Os trabalhos foram abertos pelo vice-presidente do Nexo Governamental, Luciano Torres. “Estar aqui com mulheres que representam a luta contra a violência, no dia a dia, na concretude de forma fática é um prazer enorme para o Nexo Governamental”, disse.
Assista transmissão completa. Reverbere: https://www.youtube.com/live/M7BULPDkmos?si=4pYX_TOEGRpT-T2u
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