“Para além da minha indignação procurei encontrar as razões que levam homens e mulheres negras a abraçarem causas da direita e da extrema direita no Brasil. É da natureza da direita ser racista. Os herdeiros dos escravizadores são quem compunham a extrema direita no Brasil que levava as pessoas a serem excludentes”. A fala de Ramatis Jacino, professor de Ciências Econômicas e membro do Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros da Universidade Federal do ABC, reflete o racismo existente no Brasil, em pleno Século XXI.
O docente é autor do livro “Assimilados - Os afrodescendentes frente aos movimentos de extrema-direita no Brasil e em Portugal (1888-1937)”, que teve sessão de autógrafos (07/11) na Sala Visconde de São Leopoldo da Faculdade de Direito da USP.
Ele acrescentou que foram essas aflições que o levaram a compreender as razões que o levaram a escrever o livro. “Me deparei com algumas surpresas, ao perceber que uma parte significativa, não a totalidade, da Frente Negra Brasileira, que é uma grande referência para nós ativistas, eram pessoas conservadoras, de direita e integralistas, que é uma versão nazifascista aqui no Brasil”.”
Na sequência, explicou o porquê ter apresentado um projeto para desenvolver a pesquisa de pós-doc dele na Universidade de Coimbra, em Portugal. “Tanto quanto no Brasil, lá em Portugal teve o movimento integralista. Esses dois movimentos integralistas (Brasil e Portugal) contribuíram e, depois, foram defenestrados. Aqui no Brasil contribuíram para a ascensão de Vargas, inclusive com o golpe de 1937, e lá em Portugal com a ascensão liderada por Antonio Salazar”.”
O evento foi organizado pela professora Eunice Prudente, Direitos Humanos da FDUSP. Reuniu nomes significativos da luta contra o racismo e por igualdade.
Entre os presentes, o diretor da FDUSP, professor Celso Campilongo, assinalou o significado de a faculdade abrigar evento de tamanha importância. Fez um relato da riqueza trazida para a Academia pela diversidade, a partir da implementação do sistema de cotas.
Eunice Prudente conduziu os trabalhos. E, ao anunciar a fala do docente Juarez Xavier, o primeiro diretor negro da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design da Unesp, ela recordou dos episódios de racismo sofridos por ele, incluindo uma agressão no dia 20 de novembro de 2019. Na ocasião, foi xingado na rua e, ao tirar satisfação, levou dois golpes de estilete e cinco pontos nos dois ferimentos (três nas costas e dois no ombro). “Muito obrigado pelo seu exemplo”, disse.
O livro
De acordo com o livro, entre a abolição e a consolidação da República, afrodescendentes no Brasil e em Portugal se viram diante de escolhas políticas e existenciais difíceis: resistir ao racismo estrutural ou buscar inserção nas estruturas de poder que os marginalizavam. Jacino investiga os caminhos que levaram parte das lideranças e intelectuais negros a se aproximar do conservadorismo e, em certos momentos, do integralismo.
A publicação mostra, ainda, como a Frente Negra Brasileira, o integralismo e diferentes correntes políticas disputaram sentidos para a cidadania e para a identidade nacional, em um período marcado pela transição do trabalho escravo ao assalariado e pela ascensão das ideologias de extrema-direita. É o resultado de um mergulho rigoroso em fontes e de uma reflexão teórica sólida. “Assimilados” contribui para compreender não apenas o passado, mas também as permanências do conservadorismo racial em nossa sociedade.
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